Buscar
  • Juliana Barica Righini

Experiência em Mediação Assistiva: do virtual para o híbrido com pessoas com deficiência intelectual

Atualizado: 18 de jul.


Diversas mãos fechadas em punho que se tocam em um mesmo lugar.

Decidimos escrever este texto para compartilhar as estratégias de Mediação Assistiva e de construção conjunta entre uma equipe de mediação que participei e um grupo de adultos com deficiência intelectual. O objetivo deste texto é mostrar as possibilidades de construção e tomada de decisão conjunta, considerando apoios, compreensão e valorizando o protagonismo.



Grupo Adulto com Autonomia


O grupo Adulto com Autonomia, mediado por nós, conta com a participação de adultos com deficiência intelectual e tem o objetivo de colaborar para o planejamento do Projeto de Vida e também para a conquista de autonomia dos participantes. Os encontros são semanais e, quando presenciais, eles eles têm duração de 2h30, sempre utilizando um espaço público que possa gerar desafios e experiências.


Toda a dinâmica do grupo é planejada e construída em conjunto, considerando a opinião, o desejo e os desafios de autonomia de cada integrante. Entendemos que a vivência em grupo pode trazer modelos variados de estratégias. O grupo também se torna uma rede de apoio que, por meio do vínculo e da confiança, permite vivências que não ficam apenas focadas na relação com o profissional mediador.


Grupo Adulto com Autonomia e a Pandemia


A pandemia foi decretada em março de 2020. Isso fez com que pensássemos em novas formas de atendimento e de nos relacionarmos com as pessoas. A partir disso, o grupo Adulto com Autonomia precisou ser repensado respeitando o momento que o mundo estava vivendo.


Entre março de 2020 e setembro de 2021, tivemos encontros semanais em formato virtual, com duração de 1h30, usando plataformas online (inicialmente usamos Skype e depois o Zoom).


Durante a pandemia, o grupo não teve suas experiências na comunidade, mas teve sua experiência virtual. Os participantes encontraram diversos desafios, como utilizar aplicativos pela primeira vez, enfrentar a instabilidade da internet, trabalhar a escuta, a concentração, entre outros. Os desafios foram sendo vencidos e assim, a partir dos aprendizados, a vida virtual trazendo menos interesse.


A possibilidade de retorno presencial com a vacina


Em maio de 2021, a primeira dose da vacina começou a ser ofertada para várias pessoas do grupo. A partir disso, voltamos a conversar sobre retorno, mas nem todos estavam seguros.


Aos poucos, conversamos com o grupo para saber a opinião de cada um e depois realizamos uma conversa envolvendo as famílias. Nesse encontro, ficamos de voltar a conversar no final de setembro, quando entendemos que todos estariam vacinados e a realidade poderia ser outra.


Exercício de escolha sobre possibilidades para os encontros do grupo


O tempo passou e setembro chegou. Começamos a nos preparar para uma nova conversa. Era preciso pensar como construir essa reflexão pensando na plena participação de todos do grupo.


Primeiro voltamos com o assunto em um encontro. Depois criamos uma pesquisa para saber qual formato de atendimento aconteceria a partir de setembro. O conteúdo foi construído utilizando técnicas da Linguagem Simples para que os participantes e suas famílias pudessem conversar sobre o assunto.


Primeiro passo: com os participantes


A pesquisa foi pensada com foco em favorecer a conversa entre os participantes e suas famílias. Não era um pedido de autorização para a família, mas sim um instrumento para que cada um pudesse colocar o seu ponto de vista. Para que o objetivo fosse atingido, o formulário de pesquisa contou com um roteiro a ser seguido, além da apresentação para o grupo.


A apresentação do formulário tinha como proposta: tirar as dúvidas, a apropriação do processo, o compromisso de responder o questionário, o cumprimento do prazo de resposta.


O grupo tem participantes alfabetizados e outros não. Por isso, pensamos em estratégias diferentes para que todos pudessem participar.


Nessa fase, tivemos uma adesão de alguns e outros não. Ponto importante que precisava ser trabalhado, pois era muito importante a participação e a opinião de todos. O prazo acabou após alguns encontros e nem todos responderam os questionários.

O não cumprimento desta fase era um ponto a ser discutido. Isso estava relacionado com o entendimento? Com a apropriação do processo? Com a decisão de não participar dessa tomada de decisão? Apresentava dificuldade em levar alguns assuntos à sua família? Tudo isso, claro, entre outras possibilidades. Todas essas perguntas permearam a nossa reflexão sobre a estratégia. O objetivo é que cada um pudesse contribuir de alguma forma com os apoios necessários.


O importante é ser usado como processo de aprendizado contínuo para a mudança de atitude com entendimento do protagonismo em um processo de decisão. Parece algo óbvio, mas não é fácil no seu dia a dia.


Segundo passo: com as famílias


Na sequência, sugerimos o seguinte ao grupo: um encontro com todos, incluindo pessoas da família. Tudo seria feito pelos participantes: o convite para as famílias, a confirmação da presença, o encaminhamento do link online. Durante a semana, fomos trabalhando alguns detalhes para que pessoas com maior ou menor autonomia pudessem construir o seu caminho com a meta de convidar as famílias para reunião e colaborar com a decisão.


No dia do encontro, todos puderam se colocar: pais, filhos, profissionais. Ao final, não concluímos qual seria o novo modelo de atendimento.



Terceiro passo: a decisão sobre os atendimentos


Relembrando: não chegamos a uma conclusão sobre a nova forma de encontros do grupo durante o encontro com as famílias e participantes. Parte do grupo queria continuar no virtual e parte do grupo no presencial.


Entendendo a importância do desafio e responsabilidade pela decisão final foi pensado 4 opções de atendimento para que o grupo pudesse escolher e com possibilidade de ser avaliado de tempos em tempos.

No encontro seguinte as opções foram levadas, com uma preocupação com a qualidade do atendimento era presente.


Entre as possibilidades: encontro presencial, encontro virtual e encontro híbrido, ou ainda os encontro continuarem virtuais e 1 vez ao mês um encontro presencial

O grupo votou, no encontro híbrido, inicialmente usando a casa dos participantes, ainda não usando espaços da comunidade.


Encontro híbrido


No dia 01/11/2021, tivemos o primeiro encontro híbrido, parte do grupo no virtual e parte do grupo no presencial.


Observações finais:


Todo esse relato parece tão simples, não é? Mas se olharmos cada pessoa do grupo, seus receios, sua independência, sua autonomia e tempo para o processo de escolha, tem detalhes difíceis de apresentar aqui.


A singularidade, a estratégia e o olhar para potencialidade são fundamentais em um processo de mediação. O que torna um processo aparentemente simples em algo rico de construção e de entendimento do seu papel na comunidade, na vida e acima de tudo o que envolve ser adulto.


O relato desses encontros serão mostrados futuramente quando tivermos uma melhor avaliação sobre a escolha do grupo.


Texto escrito por Juliana Barica Righini em parceria Cátia Macedo


7 visualizações0 comentário