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  • Juliana Barica Righini

Projeto conscientiza pessoas com deficiência intelectual sobre a pandemia

Atualizado: 18 de jul.

Ilustração colorida com três telas que mostram pessoas em videoconferência.


A pandemia foi anunciada! E agora? Tivemos que pensar em estratégias para continuar a estudar, trabalhar e nos relacionar com as pessoas. Situações nunca pensadas começaram a acontecer e uma quantidade enorme de informações invadiram as nossas casas. Tudo mudou e o que fazer diante de todas essas novas informações?

Nós, profissionais, tivemos que modificar os formatos de atendimento e a nossa comunicação. Então começamos a ouvir as pessoas ao nosso redor e observar como estavam vivendo.

A primeira preocupação era como as pessoas com deficiência estavam entendendo os acontecimentos; como estavam procurando se organizar para esse momento que parece sem previsão para acabar.

Foi a partir disso que eu e Cátia Macedo, psicóloga parceira, criamos o projeto “Plantão Covid e Você”. O objetivo foi possibilitar a escuta e a troca de informações entre os jovens com deficiência intelectual.


A estrutura dos encontros

Realizamos encontros com duração de 1 hora nos meses de abril e maio de 2020. Cada encontro teve seu respectivo tema para grupos de até oito pessoas, utilizando uma plataforma digital. A divulgação foi feita nas redes sociais para famílias e pessoas com deficiência intelectual.

No mês de abril, aconteceram dois encontros por semana, em horários variados. No mês de maio, fizemos 1 encontro por semana. Cada encontro, com dias e horários diferentes, para trabalhar a flexibilidade, o uso da agenda e a reorganização dos compromissos.

Os temas foram inicialmente indicados por nós e posteriormente pelos próprios participantes. Com a escolha do tema, o participante deveria fazer contato para se inscrever e informar em qual dia iria participar.


Os desafios da jornada

O primeiro desafio das pessoas convidadas era olhar a programação e escolher o tema de seu interesse. Para isso, a divulgação precisava ter estratégias acessíveis com Linguagem Simples. Nós, profissionais, nos atentamos para esclarecer possíveis dúvidas.

O segundo desafio estava relacionado à plataforma digital. Como estávamos no início do período do isolamento social, as ferramentas tecnológicas eram variadas e algumas vezes novas para muitos. Então, antes de iniciar o projeto, aconteceu o momento de aprender a usar a plataforma, com teste previamente marcado com cada participante, em alguns momentos ajudando até a baixar aplicativos.

O terceiro desafio foi calcular o valor dos encontros. Ele foi pensado entendendo a instabilidade financeira com foco em chegar em um valor acessível. Inclusive foi um exercício interessante pensando também nos jovens que trabalham para que pudessem assumir o custo. No final de cada mês, foi possível fazer o cálculo do pagamento com alguns dos participantes e a família ficou na retaguarda para auxiliar.


Os temas trabalhados durante o projeto

Os temas foram selecionados a partir das perguntas que as pessoas com deficiência fizeram tanto para nós, profissionais, quanto para suas famílias. Levamos em consideração também conceitos novos que apareceram com o avanço da pandemia.

Seguem, abaixo, os temas trabalhados:

● Vocabulário informativo sobre o coronavírus

● Isolamento social: como me sinto? O que posso fazer?

● E meu trabalho, como fica?

● Se alguém ficar doente, o que faço?

● O que faço para diminuir a saudade

● Em tempo de coronavírus, como fica o meu projeto de vida?

● Como montar minha rotina: cursos, atividades e tarefas de casa

● Cuidados em situação de emergência

● Redes sociais e amizades


Impactos na mudança de atitude profissional

Os encontros geraram muitos desdobramentos. No caso da nossa equipe, tivemos muitas reflexões sobre nossa prática, a nossa escuta, as estratégias para construir o pensamento e sistematizar o conhecimento em cada encontro.


Impactos no entendimento de conceitos

Uma das reflexões que tivemos foi que o grupo presente demonstrou ter as informações básicas sobre o vírus, além de cuidados e proteção. Alguns pontos precisaram ser repetidos, pois algumas informações se misturaram. Por exemplo, o coronavírus é um vírus e não é transmitido por insetos; quando a pessoa deve ir ao médico ou ao hospital. Muitos materiais com Linguagem Simples colaboraram para o entendimento das informações principais.

Em relação aos conceitos, esclarecemos o que é isolamento, quarentena, termos usados para explicar esse momento em que não saímos de casa. O grupo novamente demonstrou ter o entendimento básico, vindos de algumas conversas e orientações dadas pelos noticiários, com relação ao uso da máscara, do álcool em gel e higienização das mãos. Apesar disso, precisamos questioná-los sobre procedimentos relacionados ao contexto de cada casa para que pudessem ter uma ação mais participativa.


Impactos na rotina e na autonomia

Ter uma rotina para muitos era uma realidade e para outros era algo em construção. Ela é uma estratégia que ajuda a organizar procedimentos, a manter a autonomia e mostra de forma concreta o quanto de ociosidade ou não cada um tem durante a semana.Para isso, o calendário e a agenda foram recursos fundamentais.

Com isso, conversamos com os jovens para uma participação na dinâmica da família, nas tarefas domésticas que não se restringem a seus próprios pertences, mas contribuindo com a rotina da família. Levando em conta que os chefes de famílias se apresentam muito atarefados, com acúmulos de tarefas dos trabalhos, de casa, além de cuidados com parentes.

Além disso, levantamos ações que os participantes poderiam ter para conseguir mais aprendizado, autonomia e manter o contato com pessoas. No contato individual, muitos participantes receberam recursos, como cursos gratuitos, lives, entre outros.

Um ponto que chamou a atenção na conversa com os jovens foi a distinção do que era uma rotina real, a vivida no seu dia a dia e a ideal. O que demonstrou o interesse em fazer parte de forma mais ativa da rotina da casa, mas que muitas vezes não eram solicitados ou considerados.

Os encontros tinham também essa função de colaborar para que cada um pudesse ter iniciativas e se colocar mais presente. Durante os encontros seguintes, muitas atitudes foram sendo tomadas pelos participantes, tirando fotos ou relatando novas experiências.


Impacto no trabalho

O trabalho formal é muito presente no Projeto de Vida dos participantes. Eles contavam sobre o desejo de retornar ao trabalho, além da importância dos colegas.

Havia um entendimento médio sobre a sua situação no trabalho. Quando questionados, recebíamos diversas respostas, como “Estou de férias”, sem demais informações, ou sabiam que estavam afastados, mas sem a total compreensão do contexto. Trabalhamos muito a importância de não esperar a empresa, mas procurar a informação, falar com os colegas.


Impacto no cuidado

Com relação a possibilidade de uma pessoa da família ficar doente, muitos tinham informações dadas por notícias nas redes sociais, ou televisão, foi preciso construir um caminho para pensar nas informações na sua realidade, de como pode se cuidar e cuidar do outro, mobilizando para que façam parte da rede de apoio da família.

Quase todos os participantes se colocam muito a disposição em fazer, em ajudar em construir. Alguns com estratégias construídas com a família e outros não. O importante é entender que os filhos estão prontos e interessados em fazer parte da rede de apoio de algum membro da família, mas é preciso conversar sobre estratégias concretas para que possa contribuir no momento adequado.


Impacto na convivência com as pessoas

A sensação mais presente em todos os encontros foi a saudade, alguns com estratégias importantes para resolver, utilizando as redes sociais, aplicativos e outros precisando pensar em possibilidades práticas para sanar o seu desejo.

As redes sociais e aplicativos colaboram para nos aproximar das pessoas, nesse momento de isolamento social. Os participantes citaram todas as ferramentas que utilizam. Então vem a conversa sobre o cuidado, o que falo, como falo, como é a minha relação com uma rede social, quem está me ouvindo e me vendo. Quais são os critérios para aceitar um amigo nas redes sociais.


Conclusão

Para concluir, pensamos em um trabalho de curto prazo (começo, meio e fim). Por isso, o projeto teve um tempo de duração, enquanto percebemos que poderia contribuir com os interessados. Ele se encerrou, conforme notamos que os encontros não tinham mais sentidos e que outras propostas precisavam acontecer. O importante foi contribuir com o caminhar e construção de cada membro. Durante o texto, deve ter se perguntado e a família? Para esse público também teve muita reflexão, mas ficará para um outro texto.

Até a próxima!

Cátia Macedo Maia e Juliana Barica Righini









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